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As minhas heroínas: Joanne Woodward, a mulher misteriosa

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.13

Depois dos meus heróis, Fredrich March, Robert Preston e o esboço para William Holden, faltavam as minhas heroínas. As actrizes-personagens que me fascinaram. 

Para começar, aqui vai Joanne Woodward, a mulher misteriosa. Misteriosa não no sentido de esconder um segredo ou de ser perita em jogos de sedução mas porque, sem se aperceber sequer, guarda em si imensas possibilidades: inteligência, paixões, afectos, sonhos.

Aqui a navegar neste rio estão dois filmes: The Long Hot Summer e Rachel, Rachel...

 

 

 Joanne Woodward é uma actriz que absorve e transmite a complexidade das personagens, como neste desafio, as três máscaras de Eve, fabulosa personagem e impressionante interpretação.

 

 

A sua voz altera-se do aveludado ao acutilante. Dir-se-ia da sua firmeza na postura e nos gestos que se trata de teimosia ou rigidez, mas em Rachel Rachel vemos a maior vulnerabilidade, a solidão e a depressão de uma professora que vive com a mãe numa pequena cidade do interior. Uma verdadeira obra-prima de Paul Newman, elaborada com a simplicidade só conseguida por uma grande sensibilidade.

 

Joanne Woodward e Paul Newman aparecem inseparáveis neste rio. Paul Newman filmou-a como mais ninguém, nesses anos em que o cinema parecia experimental, livre, solto, com a frescura de todos os inícios. São talvez dos poucos actores/realizador que escapam ao padrão cultural da época. Os seus filmes não nos surgem datados, surgem-nos surpreendentemente actuais. Digamos que acompanham as grandes mudanças culturais da época: as inseguranças, as fragilidades, os falhanços, os desencantos, os divórcios. A linguagem é a da realidade. Mas a perspectiva dessa realidade é poética, sensível, compreensiva. O olhar é o olhar de um adulto que enfrenta os desafios. Como no filme, Winning (1969) que nos revela a maturidade de uma época que é referida como irresponsável e de excessos mas que foi talvez a mais verdadeira e corajosa a olhar-se no espelho.

 

 

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publicado às 01:16

"Easy to do justice, very hard to do right" (The Winslow Boy)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.05.13

Não sei porque fui escolher para hoje, dia 13 de Maio, um dia com tanto significado para mim e no meu mês preferido, The Winslow Boy. Vi-o recentemente num dos canais de televisão e registei de imediato as magníficas representações, a realização sóbria e elegante, os diálogos nunca aborrecidos, antes ricos de significado. O tema é inspirador e comovente: uma família gasta as suas poupanças na defesa em tribunal da inocência do seu elemento mais jovem, um cadete da Marinha, acusado de roubo.

 

 
 
 
Perto do final, vem uma das lines que me ficou desde logo registada na memória: Easy to do justice, very hard to do right.
Em tempos em que não vemos nem justiça nem o bem, estes filmes inspiram-nos e consolam-nos.
A percepção de justiça é por vezes subjectiva, mas a percepção do bem é universal: todos sabem instintivamente se o que estão a presenciar é o bem ou o mal, se prejudica ou beneficia, se constrói ou destrói, se acalma ou agita, se anima ou desespera.
 
Há outras razões para ter gostado tanto deste filme. Estamos em 1910 e as mulheres ainda lutam pelo seu direito ao voto e à participação cívica. A nossa heroína, irmã mais velha de dois irmãos, colabora activamente no movimento. Quando o advogado lhe diz que talvez se voltem a ver, na Câmara dos Comuns?, na galeria?,ela responde: na Câmara dos Comuns, mas não na galeria... à sua frente.
Às vezes tento imaginar o que diriam as nossas antepassadas da participação das mulheres hoje no nosso destino colectivo. Sentir-se-iam orgulhosas?, ou ficariam escandalizadas com a imitação da lógica do poder masculina?
Distinguirão sequer hoje, homens e mulheres, entre o que é fazer o bem e o que é fazer o mal?
 
 

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publicado às 19:45

Este Natal escolhi um guião e o piano de Sakamoto

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.11

Este Natal escolhi um filme que em si não é uma obra de arte, nem sequer um filme virtuoso em termos de linguagem do cinema, mas tem um guião com imensas potencialidades, um guião assim podia pertencer a uma obra-prima, e tem personagens fabulosas bem defendidas pelos actores.

Como muitos filmes americanos das décadas mais recentes, segue determinados clichés na sua rota, refiro-me à própria questão da construção das personagens, são personagens-tipo para o bem e para o mal, e também ao desenvolvimento do guião a partir do primeiro terço do filme.

E há a questão da solução final para os encontros e dilemas, e a questão da banda sonora, mas disso podemos tratar já, será o piano de Sakamoto (o que tenho ouvido ultimamente): “Aqua”, “Koko”, “Amore”.

 

Se quisermos pensar em Natal este filme tem lá tudo: a futura mãe, uma mãe muito jovem e vulnerável, a esperança da vida esse milagre maior, a disponibilidade da sua natureza benéfica a reflectir-se na disponibilidade de desconhecidos que com ela se cruzam.

Este guião surpreende pela sua enorme força inicial: uma rapariguinha é abandonada pelo namorado no Wal-Mart. Daí para a frente constrói as rotinas da sobrevivência para si e para a bébé que vai nascer. Mas não estará sozinha.

Perguntamo-nos se isto é verosímil, defendo que sim, que é verosímil na sua simplicidade e complexidade, isto acontece na vida real. Porquê? Porque esta rapariguinha representa todas as pessoas aparentemente frágeis mas terrivelmente fortes na sua tranquilidade e constância, na sua natureza amorosa. Muitas vezes são presas fáceis de gente sem escrúpulos, isso também é verdade, mas muitas outras vezes recebem de volta o amor que expandem. Esta é para mim a melhor aproximação possível do espírito do Natal: esta disponibilidade afável e amorosa.

 

Aqui as mulheres são-nos apresentadas numa certa diversidade de tipos e na sua força e fragilidade, cometem erros e voltam a recompor-se, desde a alcoólatra generosa à mãe solteira vítima de predadores sexuais, passando por esta rapariguinha que descobre na fotografia (o registo da vida) a sua expressão no mundo.

Os homens aqui também na sua variação possível, do pior ao melhor, e com a possibilidade de redenção final mas após terem estragado tudo (no caso do namorado).

 

Procurem rever este filme sem preconceitos cinematográficos ou outros e terão uma agradável surpresa. Natalie Portman está perfeita aqui…

 


 

 

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publicado às 17:12

A genica inesgotável das senhoras de uma certa idade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.09.10

 

Raros são os homens que mantêm esta genica na velhice, mas existem. Esta genica de que vou falar hoje é própria das senhoras de uma certa idade, a partir dos 80 e tal aninhos, as felizardas! Bem, as que têm a sorte de viver no seu espaço-tempo próprios, com alguma autonomia. Não estou a falar das que, por circunstâncias da vida, não têm essa sorte.

Já tinha constatado este fenómeno na vida real, não precisava de ver documentários ou filmes a confirmar isto mesmo. Lembro-me em especial de um documentário filmado num lar de idosos (palavra horrível), em que a senhoras se queixavam de ter perdido os maridos há anos e as que não os tinham perdido, era ainda pior!, viam-nos dormir todo o tempo sentados num cadeirão. Este desequilíbrio é terrível a partir de uma certa idade. Porque as mulheres, quando mantêm os neurónios afinados, têm uma necessidade inesgotável de comunicar, de conversar, ou de se entreter numa qualquer actividade, algumas até cantar e dançar. Neste lar as actividades eram promovidas, assim como a autonomia (se os nossos lares fossem todos assim...), e eram as mulheres as mais entusiastas. O pessoal pareceu-me especializado, não notei ali tiques de paternalismo, insuportável mania dos nossos técnicos, por melhor intencionados que sejam! Davam-se passeios de autocarro, e se não podiam ir ao teatro ou aos espectáculos, havia sempre teatro ou espectáculos a vir ao lar. Mas só alguns homens participavam na animação. A maioria ou dormitava num cadeirão ou mostrava-se alheia a tanta agitação.

 

Há, evidentemente, outras razões para este desequilíbrio: a idade é melhor para as mulheres do que para os homens, esse é um facto. No Japão, por exemplo, noutro documentário que vi, os homens encaravam muito mal o regresso a casa depois de uma vida de rotina de trabalho no exterior. Mas pior do que eles, eram as mulheres a adoecer com a presença dos homens todo o dia em casa. Têm até uma expressão muito elucidativa para designar os homens na reforma: uma folha de outono molhada colada à parede. Estão a ver? Muitas acabavam no psiquiatra e foram aconselhadas a mudar as suas rotinas: muito bem, os homens ficam em casa, elas saem de casa, há tantas actividades possíveis em grupo, cursos de arranjos de flores, por exemplo, ginástica, natação, yoga, voluntariado, ou mesmo voltar a estudar. Mesmo por cá, vemos imensas mulheres a fazer o mesmo. Embora por cá se encontrem sobretudo viúvas, que querem manter uma vida útil e activa, e não encarar a casa vazia todo o dia.

 

Se estas mulheres tiverem a sorte, como disse, de se manter activas e com alguma autonomia, podem ser extremamente perspicazes, nada lhes escapa. Os seus neurónios trabalham numa espécie de ligações rápidas e directas, em auto-estradas, e ligam só o essencial de cada problema que lhes apresentem. É certo que há ali interferências de preconceitos culturais, algum peso da tradição, o que é certo e o que é errado, o que é próprio e o que é impróprio, mas fora isso são muitíssimo práticas e inteligentes. Lembram-se daquele filme com o Peter Sellers? Em que um grupo de ladrões do pior invade a casa de uma velhinha e, quando se vêem descobertos, a tentam matar mas não são bem sucedidos? A velhinha é simplesmente uma valentona, nada a demove ou intimida!

 

Esta energia e coragem vem não se sabe de onde. Eu própria já me senti incapaz de acompanhar a genica de algumas senhoras de idade digamos assim, uma experiência nada nada edificante. Às vezes imagino-as ligadas a uma pilha Duracell, a sério! Aliás, foi o que sentiu o protagonista de um filme italiano, simplesmente delicioso, que vi semanas atrás na RTP2, Pranzo di Ferragosto. Aquele almoço em Agosto deixou-o esgotado, de rastos. E tudo começou com várias contrariedades: o mau feitio da mãe, pouco receptiva a receber convidadas em casa; uma das convidadas, amuada, que se fechou no quarto, deixando-os privados da sala de jantar para as refeições. Só a tia Maria, a especialista da pasta, se portou bem desde o início. Além de o orientar na pasta, acolheu a mãe do médico, a terceira convidada, a pedido do médico, pois estava de banco nessa noite. Contrariedades e responsabilidades: a mãe do médico vinha com restrições alimentares mas atirou-se à pasta, de noite e às escondidas, farta de comer legumes cozidos. A convidada que tinha amuado saiu de casa em plena noite sem avisar ninguém, foi descobri-la toda apinocada numa esplanada. Quando finalmente a convenceu a regressar a casa, queria jogar às cartas, dançar, e ainda se mostrou atrevidota. A paciência do nosso santo homem estava a esgotar-se. Noite mal dormida, de manhã descobre as quatro em alegres conversas, muito animadas. Investem generosamente no almoço e tudo. E ficam a pôr a mesa com todos os requintes enquanto ele vai, com um amigo, de vespa, escolher o peixinho fresco para o almoço. Almoço memorável, todos felizes, vinho fresco, conversas animadas. O nosso protagonista dá por falta do amigo e vai descobri-lo a dormir no quarto, esgotado. Desata a rir. É que ele tinha aguentado até ali. E não é que quando volta ao almoço animado, as senhoras o subornam indecentemente para mais um dia daquele alegre convívio?

Delicioso filme-documentário. Vemo-los dançar em plena sala, no final. Já tinha saudades de filmes-documentários assim... que se aproximam de forma despretensiosa da realidade do dia a dia normal (?) de tantas pessoas por esse mundo fora, vidas simples (??) ou vidas mais complicadas, mas que se podem simplificar quando existem protagonistas assim, com uma paciência de Job...

 

 

 

 

 

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publicado às 09:16

O pilar de uma família pode ser o seu elemento mais discreto

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 29.12.09

 

É uma das minhas personagens femininas preferidas, Elinor Dashwood, do Sensibilidade e Bom Senso de Jane Austen. Discreta, sensata, muito prática, adapta-se com incrível facilidade às circunstâncias mais desagradáveis e incómodas, sem se revoltar.

Pela força das circunstâncias, ver-se-á no papel de contabilista da famila, a gerir os recursos com firmeza. É o braço direito da mãe, que reconhece todo o seu valor e que a adora, desejando acima de tudo vê-la um dia feliz.

 

A mãe: esta é também a minha personagem-mãe preferida (de Jane Austen). Em cinema há outras mães, como a mãe corajosa d' As Vinhas da Ira, e a mãe benevolente do Quarto com Vista Sobre a Cidade. Mas esta mãe, Mrs. Dashwood, iimpressionou-me também pelas suas qualidades. Enviuva ainda relativamente jovem e nas circunstâncias mais adversas: o enteado herda a casa e a propriedade e, influenciado pela mulher gananciosa, dá-lhes uma ínfima parte da mensalidade que prometera ao pai moribundo. Mulher afável e educada, defende a dignidade da família e tenta proteger as filhas tanto moralmente como na sua felicidade. Tudo fará para as ver felizes, cada uma com as suas características próprias: a mais velha, tímida e sensata; a do meio, sensível e espontânea; a mais nova, inteligente e rebelde.

 

Esta história de mulheres, num mundo essencialmente masculino, por eles organizado e controlado, é muito poética e comovente. Todo o filme nos transporta para uma época de classes sociais delimitadas, de papéis sociais bem definidos, de rituais e salamaleques. Percebemos de imediato serem a expressão de uma organização muito bem concebida para proteger os homens, sobretudo os varões, e a dimensão das propriedades.

Vemos isso desde o início, como o irmão promete ao pai moribundo cuidar delas. E como a pouco e pouco nos apercebemos da terrível reviravolta da sua vida, de como se vêem repentinamente privadas da casa que sempre conheceram, dos seus objectos familiares e de todo o conforto. A mãe e a criança são as que revelam mais dificuldade de aceitação e de adaptação à mudança.

 

Mas nem todos os homens são gananciosos e volúveis como o enteado desta viúva. Aqui temos a oportunidade de conhecer um dos seus cunhados, Edward Ferrars, a que as mulheres e a criança se afeiçoam de imediato pelas suas qualidades: educação, bom-humor, generosidade. A atracção Elinor - Edward é quase inevitável, para grande alegria da mãe que ainda não tinha caído em si, na sua nova realidade financeira e social. Será de uma forma grosseira e cruel que a mulher do enteado a faz descer à terra: se o irmão não casar bem a mãe deserda-o. Ficamos desde logo esclarecidos e a nossa viúva também.

 

A nova casa: à primeira vista, pequena e acolhedora, mas sem o conforto a que estavam habituadas, como água quente ou aquecimento nos quartos. Mantêm dois empregados fiéis. E serão os vizinhos que, embora intrometidos, lhes irão suavizar o quotidiano e integrá-las socialmente na região. Bem-humorados, genro e sogra, o par mais estranho dos livros de Jane Austen, pelo menos dos que já li até hoje. A sua excentricidade acaba por se tornar calorosa. Participarão nas desventuras amorosas das raparigas, e tentarão sempre apoiá-las com a melhor das intenções: casá-las bem.

 

O Coronel Brandon: personagem que podia ter aqui uma tonalidade romântica, dado o seu passado infeliz, mas não é assim. O Coronel é um homem simples e prestável. Que fica desde logo fascinado pela rapariga sensível e espontânea. Dirá à nossa Elinor: Não a tente mudar. Conheci um dia uma rapariga assim.

Esperará pacientemente pela sua oportunidade, sem interferir no romance da sua amada com o galante e insinuante Willoughby.

 

Willoughby: uma decepção como homem adulto. Personifica a sedução imatura, de um eterno adolescente, com a imprudência a condizer. Insinua-se demasiado no coração da rapariga impressionável sem pensar nas consequências nem de como a pode estar a prejudicar. Deixa que a sua amizade adquira contornos sociais de uma familiaridade própria de um compromisso, de um noivado. Imprudência com consequências bem mais dolorosas para a nossa rapariga sensível que dificilmente recupera daquele desgosto e humilhação. Como nos surge subitamente frágil, tão comovente e frágil, naquela deambulação sonâmbula pelo jardim e nos seus passos errantes que a levam até ao lugar onde o tinha visto pela primeira vez... Willoughby, Willoughby, murmura quase num soluço...

 

Claro que gosto de finais felizes e este final não se desvia do meu ideal: uma capela de pedra, muito antiga, no poético campo inglês, sinos tocam alegremente, os noivos saem sorridentes...

 

O Realizador: Ang Lee consegue aqui a imagem mais poética de todos os filmes que adaptaram Jane Austen. Nos pequenos pormenores, na sua sobriedade e elegância. Também nas cenas no exterior, aqueles campos, a casa, o mar... Consegue uma tonalidade única, a lembrar-nos quadros de cenas campestres e, no entanto, tão reais...

E a música, magnífica... em perfeita sintonia.

 

Voltando ao pilar da família, à rapariga discreta e sensata. Pode parecer-nos pouco confiante, e até pouco visível, mas a sua base é o que de mais sólido existe, e aqui lembra-me inevitavelmente outra personagem feminina, Jane Eyre. O mais sólido é a realidade em que baseiam toda a sua percepçao da vida e toda a sua acção. Podem sonhar, quem não sonha?, mas nunca se distanciarão da realidade. Essa é a sua incrível força. E a base da sua confiança nas pessoas e na própria vida.

Elinor vê de imediato as qualidades daquele jovem. Não se ilude, acredita nele porque o conhece bem. Elinor aceita as pessoas como elas são, não as tenta mudar ou controlar. Aliás, a única coisa que controla aqui é a viabilidade financeira da casa, o orçamento familiar.

 

O mundo pode tornar-se repentinamente hostil, depende muito das circunstâncias. Num momento tudo pode estar bem, no momento seguinte dá-se a reviravolta. É por isso que Elinor é quem está melhor preparada para enfrentar a nova situação: encara a realidade, de frente, sem dramatismos. Procura o melhor ângulo, a melhor perspectiva. E começa a delinear um plano de acção. É assim que escolhe a casa possível, que melhor se adapta ao novo orçamento, é assim que vai gerindo a mesada. E tudo sem perder tempo considerando as contrariedades. É talvez a personagem que revela mais maturidade, digamos assim, a maturidade de um adulto. Qualidades magníficas, não acham? E cada vez mais raras num mundo de adolescentes ruidosos, caprichosos e inconsequentes em que o séc. XXI se está a transformar.

 

 

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publicado às 22:25

Mrs. Muir - Gene Tierney

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.11.09

 

Desafiada por um amável viajante do Rio sem Regresso, dedico esta breve paragem da jangada, a Mrs. Muir.

Digo Mrs. Muir e não The Ghost and Mrs. Muir, porque a personagem que me fascinou quando vi e revi o filme foi sempre Mrs. Muir.

E digo Mrs. Muir-Gene Tierney porque aqui são duas e uma só, só podia ser Gene Tierney esta Mrs. Muir, a jovem viúva, mulher lindíssima, vestida de negro, véu no chapéu e tudo, aparentemente tão frágil, mas surpreendentemente determinada. Uma das personagens mais fascinantes do Cinema. Sem dúvida, uma das personagens femininas mais poéticas e cinematográficas.

 

E depois há o mar... Mrs. Muir terá ficado desde logo presa àquele mar... a brisa, a maresia, o lugar certo para passar o resto dos seus dias, dedicar-se à educação da filha, com a ajuda da governanta fiel, naquela paz...

Se a casa está acessível no mercado por causa de um fantasma de um qualquer Capitão do mar... não importa, a casa é perfeita. Mrs. Muir é uma mulher muito prática, não se detém em pormenores desses.

A família do marido morto ainda tenta demovê-la, uma mulher sozinha, ali num sítio isolado, que loucura!

Mas Mrs. Muir está decidida e nada a poderá demover: aquele é o seu lugar, a casa certa.

O seu rosto é sempre tranquilo, um leve sorriso anima-o sempre... e mesmo na hora do susto, isto é, em que qualquer pessoa medianamente corajosa gritaria de susto ao ver o fantasma... Mrs. Muir responde-lhe à letra, que não se vai deixar intimidar, faça ele o que fizer.

 

Qual é o fantasma, ainda por cima de um Capitão irascível e mal-humorado, que resiste a uma mulher que o enfrenta sem qualquer receio? Um fantasma que se preze, digamos assim, ficaria completamente desarmado em frente de Mrs. Muir.

O Capitão não será excepção. E se é possível imaginar um verdadeiro fantasma apaixonado, este é o filme em que isso acontece. Nunca mais em Cinema se verá assim um fantasma a sério, rendido a uma mulher. Ainda por cima uma mulher tão jovem e de ar tão frágil. E que tinha tido o desplante de lhe invadir a casa e a sua divisão preferida da casa, que também era a dela, a do andar de cima onde se via o mar e onde passariam a conversar tranquilamente como um velho casal.

 

Os dias passam. E nada parece perturbar a paz da casa, de uma vida simples e tranquila. E das suas conversas amenas e acolhedoras.

Até surgir o factor perturbação: um homem real, de carne e osso, e com isso nenhum fantasma pode competir.

Mrs. Muir é jovem, e numa mulher jovem há sempre uma esperança secreta, de voltar a encontrar uma companhia. E este homem soube insinuar-se na sua vida, torna-se mesmo insistente.

 

E aqui estranhamos o paradoxo na personagem: como é que uma mulher tão prática e sensata se deixa seduzir por um homem aparentemente tão banal e desinteressante? É este paradoxo o mais irritante para mim, talvez porque também o vemos na vida real: um homem tão sinuoso e falinhas mansas conseguir iludir uma mulher como Mrs. Muir...

Mas é mesmo isso que acontece. Mrs. Muir, descoberto o terrível (e medíocre) equívoco, fecha-se ainda mais no seu mundo, na casa, na dedicação à filha e desiste da ideia de uma companhia masculina. Vemos, pela primeira vez, o seu rosto fechar-se, quase triste, da desilusão mais profunda, mas a estupidez, insensibilidade e aridez do mundo não a podem atingir ali. Ali estão a salvo.

Talvez parte daquela tristeza se deva à ausência do fantasma, que desaparecera para sempre depois de a ver noutros braços. Nem um fantasma é imune aos ciúmes, e isso é mesmo muito masculino.  (1)

Pode até ser mais romântico ver aquela mulher envelhecer sozinha... bem, não está propriamente sozinha, tem o mar... mas as conversas amenas e tranquilas devem ter-lhe feito imensa falta...

 

Penso que todos os que amam este filme registaram esse final, da descida das escadas, dos dois fantasmas finalmente juntos...  (2)

Também penso que se lembram da música, magnífica, e da presença daquele mar... a envolver tudo...

E que não terão ficado indiferentes ao fascínio daquela personagem feminina, Mrs. Muir.

Toda a narrativa está perfeita. Os cenários. Os diálogos. A montagem. A atmosfera daquela casa.

Este é o Cinema que de certo modo nos transformou, aos que se deixaram fascinar pela sua narrativa própria, os enquadramentos, o encadear das cenas, os sons...

Era impossível não nos ter transformado para sempre...

 

 

 

(1) Mas o impacto no nosso fantasma, da visão de Mrs. Muir com esse homem de carácter duvidoso, será apenas ciúme? Ou um desgosto mais profundo? Desaparecer para não ver a sua amada nos braços daquele homem?

(2) A eterna juventude de um certo romantismo, na idade do fantasma de Mrs. Muir. Ao meu olhar observador, que procura o verosímil mesmo em fantasmas, achei sempre que o fantasma de Mrs. Muir teria de ter a idade em que a mesma morreu. Certamente o fantasma do Capitão correspondia à idade exacta do seu desaparecimento terreno... ou não?

 

 

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publicado às 14:17

Tudo está no nosso olhar

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.07.09

Out of Rosenheim (Café Bagdad). A chegada da mulher estrangeira ao Café Bagdad, de mala na mão, deixando um marido para trás. E ainda por cima a mala errada, com as roupas dele.

Os estranhos habitantes daquele motel ao lado do Café e das bombas de gasolina, perdidos naquele deserto. A começar pela dona do negócio, Brenda, uma mulher histérica e irascível.

A aproximação das duas mulheres que irão formar uma verdadeira equipa, depois de muitas atribulações. O contraste entre elas é aliás fabuloso. A mulher calma e afectuosa, por quem o pintor ficará desde logo fascinado, irá suavizar o clima geral do café, a começar pelo pó acumulado, pela desarrumação, pelo mau-humor.


Aqui são circunstâncias improváveis que trazem novas formas de ver a vida e de a viver. Tudo está no nosso olhar. Como olhamos o outro. E como olhamos a vida.


Há uma cena muito simples e muito poética, da mulher a correr atrás de um boomerang. E do pintor a olhá-la, hipnotizado. Irá conseguir pintá-la. E um dos quadros ficará a somar os dias até ela voltar.

Uma das cenas finais é absolutamente indizível: magnífica Marianne Sägebrecht! Toda a claridade e frescura naquele yes! E magnífico Jack Palance! Repararam naquele sorriso luminoso de Jack Palance?

 

 

 

Coincidências interessantes: Já aqui dediquei um post a um outro filme, igualmente num local isolado, no meio do nada, e com um café onde se servem refeições e umas bombas de gasolina: The Petrified Forest. Com cerca de 50 anos de diferença entre si, em ambos surgem dois viajantes, aparecidos do nada: no primeiro é um escritor-nómada, neste uma mulher que acaba de sair do carro ali mesmo, em plena estrada. Só que no primeiro é uma jovem amável e generosa que recebe o viajante e neste é uma mulher irascível e desconfiada que encara a recém-chegada. Mas tanto o viajante como a recém-chegada irão alterar de forma profunda e definitiva a vida dos que os acolhem. Bem, neste a alteração é muito mais abrangente: a recém-chegada terá uma influência benéfica em toda a gente, por assim dizer: a começar pela mulher com o tal péssimo feitio, passando pelos seus dois filhos, uma miúda que ainda anda à deriva e um rapaz que toca piano de forma obsessiva. Já para não falar do pintor, que vê nela, e de um relance, uma luminosidade e suavidade invulgares. Que por ela fica verdadeiramente fascinado. E que terá de a pintar e de a guardar consigo. Bem, e não fica por aqui: a sua energia e criativadade transformam aquele café para sempre, ficará tudo arrumado e a brilhar, e os viajantes, neste caso camionistas de longo curso, terão direito a espectáculo musical com números mágicos incluídos.

 

 

 

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publicado às 15:06

A vida das mulheres num mundo essencialmente masculino

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.06.09

 

No meu tempo de colégio em Coimbra, que coincidiu com a Primavera marcelista, gostava de admirar as alunas veteranas do 6º e 7º anos (actuais 10º e 11º), que surgiam, aos meus olhos pré-adolescentes, como personagens romanescas: já tinham um namorado com quem se correspondiam, nesse tempo era assim, e vestiam de forma muito feminina (quando eu vinha familiarizada com o “estilo arrapazado” dos anos 70, das calças no inverno e dos calções no verão, provavelmente influência british no espaço-tempo onde nasci).

Foi a ouvi-las atentamente que fiquei a saber que o seu livro obrigatório no programa de Literatura Portuguesa era o Eurico, o Presbítero, de Herculano, e que um dos livros por elas mais lidos tinha um título muito moral e filosófico: Orgulho e Preconceito.

De tantos livros que vira nas estantes lá em casa nunca tropeçara naquele nem na sua autora, Jane Austen. Estranho... O mais engraçado é que entretanto já vi três filmes baseados em romances seus, primeiro o Emma, a seguir Sensibilidade e Bom Senso e depois este Orgulho e Preconceito e nada de ler os livros.

Portanto, foi pelos filmes que fiquei a conhecer as suas fabulosas personagens femininas. Sim, as personagens femininas de Jane Austen são adoráveis criaturas! Bem, nem todas, claro está, refiro-me apenas às personagens principais. Mulheres inteligentes e muito práticas, responsáveis por si próprias e pelos seus. E que valorizam os afectos de uma forma abnegada e leal. E de um raciocínio estratégico fundamental para poder sobreviver num mundo masculino.

Vi num documentário alguém chamar a atenção para esta característica nos romances de Jane Austen: não se fixa apenas no que é público, no social, mostra igualmente a realidade dos bastidores, da vida familiar, das preocupações financeiras, das dúvidas em relação ao futuro, das vidas das mulheres que procuram manter a qualidade de vida da sua família e a sua imagem ou estatuto social.

 

Neste Orgulho e Preconceito seguimos os acontecimentos pela perspectiva de Lizzie, a segunda filha de um casal brasonado que vive em pleno campoinglês. Além das qualidades geralmente presentes nas personagens femininas de Jane Austen, esta jovem mulher é muito decidida e orgulhosa. Funciona aliás como um pilar da família, mantendo a sensatez que contrasta com a superficialidade da mãe e a irresponsabilidade das irmãs mais novas. Tem uma grande cumplicidade com o pai, o único capaz de reconhecer o seu valor, e uma grande proximidade com a irmã mais velha, a que, das cinco irmãs, consegue conciliar beleza e simplicidade.

 

Um breve intervalo aqui para decidir como irei pegar neste filme de que gosto muito e que revi há dois dias na TVI, à meia noite (estes horários dos filmes na televisão é que não são nada adequados)...

 

Retomo aqui o fio à meada pela forma como, em Jane Austen, as personagens femininas mais interessantes são as que se apoiam mutuamente - as irmãs que são amigas, as amigas que são irmãs. Parte da sua força está nos laços subtis que vão entrelaçando entre si, de amizades que se alimentam com muito respeito e dedicação. Só assim também as suas vidas se podem tornar mais agradáveis e mesmo toleráveis, num mundo essencialmente masculino.

Referi aqui as personagens femininas mais interessantes, as protagonistas, que me parecem funcionar em Jane Austen como modelos que representam valores morais: a coragem, a amizade, a lealdade, a abnegação, a sensatez, a sensibilidade. A sua consistência está precisamente em não serem perfeitas e em terem uma mente autónoma, a consciência da realidade, dos condicionalismos da sua vida. Em algumas vemos o orgulho, noutras a determinação, noutras ainda a timidez. Todas observam o mundo em redor, há uma curiosidade natural pelas pessoas e pelas suas vidas, nenhuma se fecha sobre si própria ou se aliena em ilusões ou fantasias.

As personagens femininas de Jane Austen também são um pilar da família: a filha que se sensibiliza com a ingenuidade da mãe, a filha que se dedica ao pai, a filha que protege a família.

E há as personagens femininas secundárias, as pueris, as superficiais, as egocêntricas, as altivas, as dominadoras, as implacáveis. Todas as variantes de uma natureza feminina numa época tão limitativa para as opções de um percurso interessante.

É aqui que vejo a grande eficácia das mulheres de Jane Austen: para viver naquele cenário masculino, a ginástiva mental e emocional que precisam de treinar! A capacidade de observação e de inteligência prática, para antecipar acontecimentos ou despoletar outros que possam jogar a seu favor!

É certo que Jane Austen se dedica a analisar uma classe social com alguma margem de manobra, não é a vida-escravatura das mulheres sem quaisquer recursos. Mas nesta classe, as mulheres vivem diariamente o medo de perder o seu nível de vida ou de ver a família em dificuldades financeiras. Elaboram constantemente contas de cabeça, rendimentos ao ano, que podem fazer a diferença entre uma vida com algum conforto ou uma vida com muitas privações.

 

Voltando ao Orgulho e Preconceito, o que mais me impressionou:

- o movimento de todo o filme, desliza suavemente sem quebras ou sacudidelas, sem paragens bruscas nem atropelos, perfeito;

- as cenas dos dois bailes: a primeira, pela sua espontaneidade e alegria estonteante, tanto dos que dançam no salão, como nos que se passeiam pela casa, as conversas, os comentários; a segunda, pela coreografia poética, a revelar uma atracção entre aqueles dois aparentemente tão diferentes;

- a forma natural como vamos conhecendo as personagens, pelo seu comportamento e atitude;

- as cenas de bastidores da família Bennet, a forma como se adaptam a diversos registos e a diversas circunstâncias;

- a fotografia, aqueles enquadramentos clássicos, aqueles palacetes, aqueles jardins, o campo inglês...

 

Este é o papel de Keira Knightley, uma Elizabeth encantadora. Mr. Darcy aqui em jovem romântico tímido, mais belo e frágil do que a descrição que dele fazem as outras personagens e outras ainda de um outro filme, You' ve Got Mail, na conversa-duelo daqueles outros dois...

Os homens aqui em diversas paletas: o gentleman e amigo leal, o pai protector-afável e marido tolerante, o oportunista-arrivista, o ambicioso-servil, o ingénuo-carinhoso.

 

Ainda gostaria de voltar, um dia destes, a esta época de vidas simples em tempos difíceis, pela voz sensata de Jane Austen e o olhar poético de Ang Lee, no Sensibilidade e Bom Senso, que tanto me impressionou...

 

 

 

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publicado às 00:51

Jane Eyre

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.04.09

 

Jane Eyre fascinou-me na adolescência. Aquelas personagens! A rapariguinha com aquela força de carácter! Parecia mais um espírito andarilho do que uma mulher. E no entanto... tão capaz de paixão e de afectos!
E Rochester... o sombrio Rochester...


Vi recentemente o clássico Jane Eyre com a Joan Fontaine e o Orson Welles. O filme não me impressionou por aí além.
Por isso me agradou tanto ver na Rtp2, e por duas vezes, uma excelente série para televisão. (1) Muito equilibrada, os actores bem dirigidos, as cenas muito bem concebidas. E uma Jane e um Rochester muito comoventes. Aquele final feliz...

Porque me tocou tanto esta Jane andarilha e este Rochester sombrio?
Um Rochester sombrio, preso ao passado, a querer viver o amor... E aquela frase: Não somos do género platónico...
E não são. Os reencontros entre risos e lágrimas, “dois irmãos gémeos”. E a comunicação à distância: Espera por mim...


Acho enternecedora a forma como estas escritoras construíram personagens femininas tão fortes, decididas, cultas e autónomas. E como os homens, enquanto personagens, as aceitam como iguais.
Terá sido assim com Charlotte Brontë ou ter-se-á projectado num futuro idealizado? (2)

Também enternecedora esta filosofia tão feminina da generosidade, da distribuição dos bens por todos, de colocar a família à frente do individual.
E como acaba tudo bem. Jane, Rochester e o filho. E a recuperação de alguma da visão perdida. E a família toda unida, finalmente.
Depois de todas as atribulações, desencontros, solidão, sofrimentos, é assim que eu gosto de ver tratadas as minhas personagens bem-amadas.

 

 

 

 

(1) Série de 2006, realizada para televisão, por Susanna White. A adaptação do romance de Charlotte Brontë por Sandy Welch e magníficos actores nos principais papéis: Ruth Wilson (Jane Eyre) e Toby Stephens (Rochester). Se bem que o Rochester do livro não devia ser tão jeitoso, mas enfim... este Rochester é o mais agradável de todos os Rochester que vi... e assim para sempre ficará ligado, na minha memória, ao Rochester do livro.


(2) Brontë, name of three Englisn novelists – the sisters Charlotte Brontë (1816-55), Emily (Jane) Brontë (1818-48), and Anne Brontë (1820-49) – who's works, transcending Victorian conventions, have become beloved classics. All three, and their brother (Patrick) Branwell Brontë (1817-48), were born in Thornton, Yorkshire... . Their father, Patrick Brontë (1777-1861), who had been born in Ireland, was appointed rector of Haworth, a village of the Yorkshire moors... . In 1824, when their mother died, Charlotte and Emily were sent to join their older sisters Maria and Elizabeth at the Clergy Daughters' School in Cowan Bridge; this was the original in which was modeled the infamous Lowood School of Charlotte Brontë' novel 'Jane Eyre'. … In 1831 Charlotte went to school in Ro Head, returning home a year later to continue her education and teach her sisters. She returned to Roe Head in 1835 as a teacher, taking Emily with her. In 1842, conceiving the idea of opening a small privarte school of their own, and to improve their French, Charlotte and Emily went to Brussels, to a private boarding school. The death of their aunt, who had kept house for the family, compelled their return. Emily stayed at Haworth as housekeeper. Anne bacame governess in a family, where she was joined as tutor by Branwell, who had failed first as a portrait painter and then as a railway clerk. Charlotte went back to Brussels, her experiences there forming the basis of the rendering, in 'Villette' (1852), of Lucy Snow's loneliness, possibly the most terrifying depiction of human isolation in English literature. In 1845 the family was together again. … Each sister then embarked on a novel. Charlotte's 'Jane Eyre' was published first, in 1847; Anne's 'Agnes Grey' and Emily's 'Wuthering Heights' a little later that year. Speculation about the authors' identities was rife until they visited London and met their publishers.... 'Jane Eyre' 's popularity has never waned; it is the most impassioned expression of feminism in English. … (em: Funk & Wagnalls New Encyclopedia, 1979, vol. 4)

 

 

 

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publicado às 11:31

Efeitos colaterais da lua cheia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.03.09

 

Mais do que uma comédia romântica, Moonstruck é uma inspiração, a meu ver, para quem desistiu de arriscar qualquer relacionamento, porque estão todos condenados ao fracasso ou porque não se tem sorte. Esta é a convicção de uma viúva que trabalha como contabilista e vive no casarão dos pais. (E este é o papel da Cher, sem dúvida!)

Moonstruck é igualmente uma fonte riquíssima de lines cómicas, do início ao fim. Animaram-me muitos dias cinzentos. Tantas vezes revi este filme, que acabei por memorizá-las. E penso que ainda as sei de cor.

 

Estas personagens representam alguns tipos de comportamento da comunidade italiana mas, na sua essência, são universais.

A solidão assumida e desencantada de algumas mulheres.

A crise masculina da meia-idade e a conquista de mulheres mais jovens ou mais fogozas.

A mulher traída e negligenciada.

O solteirão menino-da-mamã.

A mãe possessiva e egoísta.

O jovem sensível e revoltado.

O patriarca que se sente confuso com tantas alterações emocionais e afectivas na família.

O casal de meia idade que mantém a paixão e a alegria da juventude.

 

E ainda não cheguei à lua cheia!

 

Voltemos então ao início:

Uma viúva trintona (Cher) janta num restaurante italiano com o namorado, um solteirão menino-da-mamã. Ela própria já assume um papel maternal com este homem. Lá pela sobremesa, ele resolve declarar-se. Ela exige que se ajoelhe. E isto em pleno restaurante. Ele obedece. Ela insiste, refilona: Where is the ring?

Ele improvisa e retira o seu próprio anel do dedo mínimo. Terá de servir por agora.

Ela acompanha-o ao aeroporto. Ele vai à Sicília ver a mãe que está nas últimas... (em breve saberemos que a mãe ficou nesse estado ao saber que o filho ia casar).

Ela dá-lhe conselhos maternais. Ele aceita-os naturalmente. Despedem-se.

Ela fica a ver o avião partir. Ao seu lado está uma velhinha aparentemente inofensiva, vestida de escuro. E diz-lhe que acaba de lançar uma praga sobre o avião para que caia no oceano. É que no avião segue a sua irmã, que lhe roubara o homem que amara na juventude, e que agora até lhe confessara nunca ter gostado dele. Ela não se deixa impressionar, é uma mulher prática: I don't believe in curses...

 

Ela volta a casa, encontra o pai na cozinha e dá-lhe a grande novidade. O pai nem quer acreditar que ela quer casar de novo e logo com aquele big baby!

Vão até ao quarto contar a novidade à mãe (fabulosa Dukakis) que abre os olhos quando os vê entrar e num queixume pergunta: Who's dead?

E o mote está dado. Sempre em crescendo, os acontecimentos precipitam-se, acompanhados por uma magnífica lua cheia!

 

Quem poderia sequer imaginar que um simples convite de casamento, ao único irmão do namorado, iria despertar nela a paixão e revelar-lhe mesmo uma dimensão do amor que nunca tinha vivido? Esta cena é mesmo impressionante! Um jovem atormentado, porque perdera a mão e a noiva e tudo em sequência... e que por toda essa desgraça ainda culpava o irmão... I lost my hand! I lost my girl! I lost my life! And my brother Johnny is getting married! Sim, um jovem sensível e teatral, que mora por cima da padaria onde trabalha e que ouve ópera a toda a hora.

Enquanto ela lhe prepara um bife mal passado, ele coloca o disco a tocar. Ela olha-o tranquilamente a comer com apetite, this is good, e responde às suas perguntas curiosas: sim, fora casada mas teve bad luck, o marido morrera atropelado pouco depois do casamento, não, nunca casara de novo, sim, ia casar com o Johnny... Ele alerta-a para o erro, fora por causa do irmão que perdera a mão, e ela até poderia perder a cabeça.

Bem, a partir daqui terão mesmo de ver o filme!

 

 

 

 

 

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publicado às 20:53


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